O poder e a arte


Orlando Senna*

Orlando-Senna.-Perfil-DiálogosFaltam oito dias para as eleições e não creio que, até lá, apareçam novidades importantes sobre a questão audiovisual, seja nas manifestações do setor, seja nos programas de governo das principais candidatas, Dilma e Marina.

Os artistas, trabalhadores e empresários do ramo fizeram sugestões e reivindicações, as mais recentes no Festival de Brasília (o documento “Por uma primavera do audiovisual brasileiro”, com divulgação na internet). As candidatas não fizeram mudanças no que já estava dito em seus planos de governo, também bastante divulgados e resenhados neste blog, onde dediquei dois artigos sobre o assunto.

fomeentoA minha opinião é que o próximo governo deve fortalecer ainda mais a Ancine-Agência Nacional de Cinema e sua política de expansão da atividade e, ao mesmo tempo, debelar a crise de crescimento da instituição, promovendo ajustes preventivos e cirúrgicos principalmente no que se refere à burocracia; que a prioridade da agência seja a veiculação do conteúdo brasileiro em todas as mídias; que a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura volte a ter importância estratégica e política, com foco na cultura audiovisual e exercendo complementaridade com a Ancine, com foco no mercado; que o novo governo tenha a plena compreensão da importância medular do audiovisual na economia e nas soberanias nacionais no século que vivemos e a inteligência de promover um marco regulatório da atividade, abrangente, contemporâneo e democrático.

E que a aposta maior seja no poder de criação, invenção e coragem de nossos artistas. Disto tive mais uma prova contundente nos últimos dias, participando do 47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A curadoria do festival decidiu selecionar para a premiação oficial apenas filmes representativos da mais recente onda artística nacional, uma geração com novas propostas quando ainda estamos saboreando a onda anterior, o impactante cinema de Cláudio Assis, Karim Ainoux, Sérgio Machado, Marcelo Gomes, Lírio Ferreira, Paulo Caldas, Cléber Mendonça Filho, Hilton Lacerda, Cao Guimarães, José Padilha e outros brilhantes cineastas.

A novíssima onda radicaliza a experimentação estética, abole totalmente os limites entre realidade e ficção, elabora uma sofisticada popularização da linguagem que se confunde com amadorismo (no sentido de fazer com amor), levam ao extremo a incorporação dos baixos orçamentos a essa linguagem, levam o espectador a exageros de risos e lágrimas. “Cinema de risco” ou “o nicho mais experimental do cinema brasileiro”, como definiu o crítico Luiz Zanin. “A estética da sucata”, como disse o ator e poeta Emmanuel Cavalcanti.

A maioria dos novíssimos cineastas são oriundos da baixa classe média e das periferias, alguns da classe média, mas o tema é sempre um Brasil profundo. Não tenho espaço para dizer tudo que me vai na alma sobre essa turma, nem sobre todos os filmes exibidos. Acho que foi mais um Festival de Brasília “histórico”, como outros que aconteceram nesse evento caracterizado pela politização (linguagem é política). O enorme entusiasmo dos espectadores brasilienses e as dúvidas de intelectuais e cineastas veteranos autorizam essa profecia. Sugiro que vocês vejam, o quanto antes, os dois filmes mais premiados pelo júri oficial: a efervescente metáfora Brasil S/A de Marcelo Pedroso e o mix de ficção científica e crua realidade Branco sai. Preto fica de Adirley Queirós, grande vencedor do festival.

Distribuição? O papo dessa turma é diferente. Adirley disse à mídia que seu filme pode ser visto por sete bilhões de pessoas (referindo-se às redes sociais, claro) mas também vai vender cópias nas feiras populares. Grana para produção? É um papo mais diferente ainda. O último ato da turma no festival foi dividir o prêmio de melhor filme, 250 mil reais, por todos os seis concorrentes de longa-metragem. Foi uma comoção na plateia. Nunca coisa igual aconteceu antes no cinema brasileiro, quiçá no cinema universal.

  • Orlando Senna é cineasta e colaborador do ObsevaCine \ Revista Diálogos Do Sul

Filmambiente – Festival Internacional do Audiovisual Ambiental


destaque-filmambienteCom 62 filmes brasileiros e estrangeiros na programação, todos com exibição gratuita, começa na próxima quinta-feira (4), no Rio de Janeiro, a quarta edição do Filmambiente – Festival Internacional do Audiovisual Ambiental. Este ano o evento terá a presença, entre os convidados, de cineastas estrangeiros e diretores de outros festivais internacionais sobre o tema, e pela primeira vez irá às zonas norte e oeste da cidade com exibições de filmes nas Naves do Conhecimento, da prefeitura do Rio.

Os filmes da mostra, que vai até o próximo dia 10, foram selecionados entre produções recentes apresentadas em importantes festivais mundiais, como os de Cannes e Berlim, e também entre os mais de 400 inscritos. O Filmambiente tem uma mostra competitiva, de longas e de curtas-metragens, e cinco mostras paralelas.

Filmambiente – Festival Internacional do Audiovisual AmbientalO tema central desta edição, Porque o Futuro Chegou, está expresso em filmes que contam a história de pessoas que lutam para mudar as expectativas e criar um futuro melhor para o planeta. É o caso de Virunga, produção britânica dirigida por Orlando von Einsiedel, que abre o festival às 21h do dia 4, no Espaço Itaú de Cinema, em Botafogo, zona sul do Rio.

O documentário conta a história de pequena equipe de guardas florestais que protege o Parque Nacional de Virunga, no Congo, África, um dos lugares mais ricos em biodiversidade no mundo, que abriga os últimos gorilas da montanha. Além de defender o parque – patrimônio mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) -, a equipe enfrenta as ameaças de um grupo rebelde do país africano.

“Já é tempo de resolver os problemas ambientais, de mostrar as soluções para eles”, enfatiza Suzana Amado, diretora e idealizadora do Filmambiente. Os filmes desta edição mostram o que as pessoas estão fazendo para resolver as questões”. Atitudes políticas em prol do meio ambiente e da sustentabilidade também estão presentes nos outros sete documentários de longa-metragem da mostra competitiva, entre eles o brasileiro Naquela Época e Hoje, de Luiz Adelmo Manzano, que aborda a preocupante situação da saúde das pessoas, em plena era da informação, apesar da evolução científica e tecnológica.

Seis diretores estrangeiros debaterão seus filmes com o público após as sessões. Além dos oito longas, 25 curtas estão na competição, exibidos em sessões também no Espaço Itaú de Cinema. São documentários, filmes de ficção e de animação, de 20 países tão diversos quanto as temáticas abordadas.

Entre as mostras paralelas, a Cine’Eco 20 Anos, que será apresentada no Instituto Moreira Salles (IMS), homenageia as duas décadas do festival de cinema ambiental na cidade de Seia, em Portugal. O diretor da Cine’Eco, Mario Branquinho, é um dos convidados do Filmambiente e participa no dia 9, às 18h30, no Oi Futuro Ipanema, do painel Meio Ambiente: Evolução Temática e de Abordagem nos Últimos 20 Anos. Com mediação do jornalista Agostinho Vieira, o painel terá como debatedores o economista e ecologista Sergio Besserman e a jornalista e cineasta Paula Saldanha.

Filmambiente – Festival Internacional do Audiovisual AmbientalOutra discussão terá lugar no sábado (6), às 16h, no Museu do Meio Ambiente, no Jardim Botânico, quando será exibido, fora da mostra competitiva, o filme brasileiro O Veneno Está na Mesa 2, de Silvio Tendler. O novo documentário do cineasta, que participará de debate após a exibição, dá continuidade à reflexão sobre o perigo que o uso de agrotóxicos representa para a saúde, mostrada no primeiro filme dele sobre o tema, lançado em 2011.

O Veneno Está na Mesa 2 também será exibido na Nave do Conhecimento de Madureira, zona norte do Rio, uma das quatro – as outras ficam na Penha, no Irajá e na Vila Aliança – que terão sessões do festival, voltadas para alunos das escolas públicas e para os moradores desses bairros. Para as exibições nas Naves do Conhecimento, os organizadores do Filmambiente programaram documentários brasileiros que tratam de qualidade de vida e de alimentação.

“A proposta é expandir o festival e sair do circuito zona sul. Principalmente com o propósito de atrair crianças e alunos da rede de ensino, de trabalhar na formação de plateias interessadas no cinema ambiental”, defende Suzana Amado, que aposta na parceria com a prefeitura carioca para a ampliação dos espaços de exibição do festival.

Os filmes vencedores da mostra competitiva serão exibidos no dia 11, a partir das 18h30, no Oi Futuro Ipanema, espaço que também participa pela primeira vez do festival. A programação completa está disponível no site http://www.filmambiente.com.

Paulo Virgílio – Repórter da Agência Brasil
Edição: Stênio Ribeiro