Instalação colaborativa apresenta “Arte Cerebral”


arte cerebral 02.jpgNeurocientista e cineasta brasileiros transformam pensamento em arte em instalação audiovisual. A obra colaborativa usa o cérebro de espectadores para gerar imagens e sons.

Sofia Moutinho*

Na instalação audiovisual, as imagens obtidas a partir da atividade cerebral de voluntários são projetadas em uma tela de cinema, acompanhadas de sons de instrumentos musicais. (foto: Divulgação)

Chegou o tempo em que não é mais preciso pegar em um pincel ou mover um dedo sequer para fazer arte. Obras feitas com força do pensamento já são realidade e atingiram seu ponto alto no esforço criativo de um neurocientista e um cineasta brasileiros.

O neurocientista é Álvaro Machado Dias, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e o cineasta é Fernando Meirelles, diretor de sucessos internacionais como Cidade de Deus e Ensaio sobre a cegueira. Juntos, com o apoio de outros cientistas e artistas, os dois criaram uma instalação de arte audiovisual na qual é o próprio público quem cria a obra, usando apenas o cérebro.

Batizada de ‘Videowave’, a instalação tem por base três capacetes de eletroencefalografia, aparelho que capta sinais cerebrais. Conectados a um computador, a uma tela de cinema e a caixas de som, eles fazem a obra acontecer quando vestidos por pessoas determinadas a participar do processo criativo.

Cada voluntário-artista controla um elemento gráfico e um instrumento

Os capacetes captam a atividade cerebral dos voluntários e transmitem a informação para o computador. Um software especialmente criado para a instalação detecta os sinais cerebrais intencionais e, de acordo com a sua intensidade, projeta imagens na tela acompanhadas de sons de instrumentos musicais usados na canção ‘Pré-sal’, de Nando Reis. Quanto maior a atividade cerebral, mais imagens e sons são exibidos.

Cada voluntário-artista controla um elemento gráfico e um instrumento. Conforme se apoderam do processo, o caminho natural é intensificar a atividade cerebral e, por consequência, preencher a tela toda com imagens e atingir o volume máximo da música. Quando isso acontece, a obra fica completa e acordes de guitarra da música ‘Pré-sal’ marcam o momento derradeiro.

“Muito mais que tecnologia, a entrega profunda e a dependência mútua são o principal dessa obra”, diz Dias. “É uma obra que depende do lastro social estabelecido no momento. É como uma gangorra: ou todo mundo participa ou não há obra. Se uma pessoa não se empenhar, as outras duas ficam fazendo o esforço à toa e não se chega ao final.”

O neurocientista, que escreve poesia e tem interesse antigo por arte, acredita que a instalação quebra paradigmas. “Existe uma discussão muito profunda na arte sobre o espectador participante”, comenta. “Normalmente, as soluções propostas envolvem mexer em algo, apertar um botão ou transitar dentro da obra. Mas essas são falsas soluções, apenas mecânicas. Nossa instalação requer uma participação profunda, cerebral, uma maneira mais radical de superar a fruição passiva do espectador.”

Estado de êxtase

Por enquanto, a instalação só foi montada uma vez, no Instituto de Arte Contemporânea e Jardim Botânico Inhotim, em Minas Gerais. Na inauguração, o neurocientista Sidarta Ribeiro, que estuda a interface cérebro-máquina na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), foi um dos voluntários-artistas.

“Inicialmente, duvidei da eficácia da interface entre computador e sinal biológico, mas, após alguns minutos de tentativas e erros, fui me convencendo de que efetivamente era meu cérebro que controlava o sinal”, conta Ribeiro. “Senti meu corpo se aquecer e principalmente vibrar; uma sensação completamente nova. Ultrapassei o limiar estipulado respirando intensa e intencionalmente, como nunca havia feito antes. A beleza desse momento e a emoção do esforço conjunto me levaram a uma catarse. Chorei e atingi um êxtase.”

A trilha sonora escolhida por Nando Reis ajudou a criar o clima. “Usei ‘Pré-sal’ como base porque ela fala de memórias da infância e me pareceu ter todos os elementos necessários para ser a trilha: um tema circular e mântrico que se repete”, explica o músico.

Ciência a serviço da arte

Por trás de toda a beleza estética da obra, há muito trabalho duro. Dias conta que foram necessários meses de estudo até que ele e sua equipe conseguissem detectar os sinais cerebrais correspondentes à intencionalidade e correlacioná-los no programa de computador com as imagens e a música. “Tivemos um trabalho científico de criação tecnológica enorme”, diz.

Segundo o neurocientista, a obra foi a primeira a usar mais de um aparelho de eletroencefalografia simultaneamente com o propósito de criar arte. “Vários aparelhos usados ao mesmo tempo não quer dizer nada, mas aqui temos uma só interface sendo controlada simultaneamente por várias cabeças e isso requer um programa de análise computacional muito sofisticado, pois um cérebro vai gerando interferência no sinal do outro”, argumenta. “O que fizemos foi a primeira demonstração de eletroencefalografia social da história.”

A instalação é um piloto para um projeto maior que está sendo desenvolvido para o Museu do Amanhã, em construção no Rio de Janeiro.

* Sofia Moutinho, Ciência Hoje On-line

Assista ao vídeo:

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