‘Público do cinema está cada vez mais conservador’, dizem diretores do Glauber Rocha


Marília Moreira*

Responsáveis pela ressurreição de um dos mais importantes espaços culturais de Salvador, o antigo Cine Guarany – atual Espaço de Cinema Itaú Glauber Rocha –, Cláudio Marques e Marília Hughes transpiram história. Foi ela, ou melhor, foram elas, que reinaram absolutas nessa quase uma hora de entrevista ao Bahia Notícias. Na sexta feira (2), os cineastas e produtores encerram o recebimento dos filmes que serão selecionados para exibição e mostras competitivas da nona edição do Panorama Internacional Coisa de Cinema. O festival, que é sediado no Centro Histórico de Salvador e também acontece em Cachoeira, já é o maior e mais reconhecido da Bahia.

Nesses mais de dez anos de evento – com o tempo de idealização –, algumas diretrizes já foram consolidadas: valorizar a história e o patrimônio, dialogar com o que é produzido no Brasil e no mundo, acompanhar produções fílmicas em sua fase mais embrionária para aperfeiçoar o “fazer” cinematográfico. Apaixonados por cinema, eles veem na sétima arte uma maneira de documentar e de contar, de um modo diferente, coisas que dizem respeito ao passado, presente e futuro.

Este ano, eles lançam, no Festival de Brasília, o primeiro longa-metragem ficcional de suas carreiras. Intitulado “Depois da Chuva”, o filme tem inspiração autobiográfica e está, mais uma vez, ligado à história. Desta vez, a do Brasil, já que a trama, que se passa na Salvador dos anos 80, está conectada a um cenário político mais amplo, ligado às Diretas Já e à redemocratização do país. “O filme surge em um momento importante também – obviamente, nada programado – porque recupera o renascimento dessa democracia. Acho que para entendermos essa insatisfação de hoje, de como a democracia está sendo exercida e qual o nosso papel nesse processo, temos de ter em vista esse passado recente da história do Brasil. Para entender tudo isso, temos, realmente, de voltar pra 1984 e entender 1984”, afirmam. Mas as coisas não são tão por acaso assim. Como bons entendedores e contadores de histórias, eles sabem que a história é cíclica.

BN – Em 2013, o Panorama Internacional Coisa de Cinema chega à sua nona edição. Nesta sexta (2), encerram-se as inscrições dos filmes a serem exibidos no festival e a participaram das mostras competitivas. Ano passado, a edição foi bem marcada pelo cinema feito em Pernambuco, inclusive, o vencedor do maior prêmio foi “O Som ao Redor”, de Kléber Mendonça Filho. Esse ano, o que vocês estão privilegiando na curadoria?

Cláudio Marques  –  Acima de tudo, a gente privilegia os bons filmes. A gente está sempre nessa busca e na busca de que, no total, todos esses filmes consigam construir um corpo e, no conjunto, possam falar não apenas por si, mas por algo maior. Esse é o nosso trabalho mais grave em termos de curadoria: achar o filme bom, mas que mantenha esse link com o todo. Tudo isso para mostrar como anda a produção fílmica no Brasil e no mundo, um panorama mesmo.

Marília Hughes  –  Você citou aí a relevância que Recife ganhou e teve também no Panorama ano passado. Não é que a gente privilegiou Recife, mas Recife nos últimos anos vem se destacando e a gente não tem como ficar insensível a isso.CM – Vindo para cá, para essa entrevista, eu e Marília até falávamos que já vimos filmes muito bons, enviados para a edição desse ano, que não são necessariamente de Recife. É muito bom quando vemos bons filmes. Filmes urgentes, pela temática, mas ao mesmo tempo, filmes muito bem pensados como cinema, para o cinema, esteticamente muito importantes. Não tem somente a questão da urgência do tema, mas também o pensamento de o cinema se alimentar através do cinema. E já temos certeza que nessa edição iremos conseguir mostrar filmes assim.

BN – E quais as novidades desse ano?
MH – Pela primeira vez, estamos abrindo uma competitiva de curtas internacionais. Já tínhamos a exibição de longas internacionais fora das mostras competitivas, o que nos dava um panorama do que está sendo produzido lá fora, mas agora a gente está trazendo os curtas internacionais. Eu acho bem rico para a formação, para a compreensão da cinematografia, dos caminhos que estão sendo trilhados. E a gente está bem contente com a repercussão disso e como o número de inscrições que temos recebido. Pela primeira vez também iremos fazer laboratório de roteiro. Inicialmente, roteiros voltados para o estado da Bahia, porque a gente quer que o Panorama seja um espaço de divulgação, de exibição, mas também um espaço de formação, de aprimoramento. E esse laboratório é pensado neste sentido da troca entre os consultores – três pessoas que ainda serão confirmadas – e os participantes. A ideia é aprimorar esses projetos, fazer com que eles sejam executados, porque eles serão os futuros filmes que iremos exibir. Assim espero, que a gente possa contribuir no momento inicial desses projetos, para que eles sejam cada vez mais fortes.
CM – Outra coisa que eu acho legal no Panorama é que ele se firma para fora do Brasil também. Estamos estreitando, cada vez mais, os laços com outros festivais estrangeiros, internacionais. O Indie Lisboa, que é um dos principais festivais de cinema da Europa, já tem uma relação conosco. Ano passado, trouxemos um curador desse festival para cá e ele ficou realmente muito encantado com o festival, com a nossa curadoria, com o cinema, com o espaço, com essa experiência fílmica que a gente oferece. Esse ano eles vão voltar para cá e vão escolher um filme brasileiro para estar no Indie Lisboa, ou seja, estão lançando um prêmio dentro da programação. Isso é uma coisa cada vez mais importante, porque o cinema brasileiro como um todo está lutando para ter uma visibilidade fora do Brasil, nos principais festivais estrangeiros. Vai ter uma curadora do México e, a partir desse ano, começaremos a estabelecer uma relação com o cinema mexicano também.

Fachada do Espaço Itaú de Cinema Glauber Rocha durante abertura do 8ºPanorama Internacional Coisa de Cinema
BN – Responsáveis pela ressurreição de um dos mais importantes espaços culturais de Salvador, o antigo Cinema Guarany, hoje Espaço Itaú de Cinema Glauber Rocha, vocês são grandes incentivadores do Centro Histórico, não é? Kléber Mendonça, inclusive, sempre elogia essa iniciativa de vocês, que permitiu que o cinema ganhasse novamente as ruas.
MH – Sim, temos centrado nossos esforços nos centros históricos. E aí, vamos um pouco em direção ao que Kléber falou, de valorização do cinema de rua. A gente tem todo um esforço de hospedar os convidados no Centro Histórico, no bairro do Santo Antônio, que dentro deste perímetro é um dos poucos residenciais, e tem esse caráter misto de ser turístico e ser residencial, equipado com pousadas, lugares muito gostosos, interessantes. Desde o ano passado temos fechado parcerias com os empreendimentos locais para que as pessoas circulem pelo entorno, já que se pode ir caminhando da pousada até o cinema, conhecendo todo esse patrimônio. Eu acho que tudo isso vem dando uma certa personalidade ao Panorama. E, desde o ano passado, a gente faz simultaneamente o Panorama em Salvador e em Cachoeira, que também é uma cidade histórica. Acaba sendo uma experiência muito bacana para o realizador que vem apresentar seus filmes em Salvador, ter a oportunidade de conhecer o interior, uma cidade universitária, que tem uma curso de cinema. Nossa parceria é com a Universidade Federal do Recôncavo através da professora Cyntia Nogueira, que também coordena o cineclube Mario Gusmão. Essas coisas a gente vai ajustando: é um interesse nosso, mas também um posicionamento político do festival, de fortalecer uma determinada experiência de cinema, que é a experiência de um cinema de rua, que agrega a diversidade, que tem toda uma relação com o que está fora. Não é uma caixa fechada, um shopping, um mundo paralelo. Você tem um contato com a cidade, a vista para a Baía de Todos-os-Santos…
BN  –  Recentemente teve aquela polêmica em torno da construção da Arena Castro Alves, no local onde está situada a Praça Castro Alves. Vocês participaram muito da discussão, vários textos de Cláudio circularam pela internet e ele também esteve presente nas reuniões com a Secretaria de Cultura de Salvador. Qual a posição de vocês sobre o assunto?
CM  –  Engraçado, você fala recentemente, mas me parece que tem tanto tempo… Já aconteceu tanta coisa, tantos protestos. Mas sim, foi no início desse ano e eu acho que a gente já tinha um espírito de contestação e de empoderamento da população, que era o embrião de tudo isso que a gente está vivendo hoje. Então aquilo refletiu o desejo das pessoas em participar, em não só ver as coisas equivocadas acontecerem em nossa cidade e sentir aquela impotência. Fiquei muito inquieto e tentei entrar em contato com Leonelli, com a Bahiatursa para manifestar minha posição, e não fui recebido. A arena é um projeto que não sei de onde surgiu. Nos últimos trinta anos, o Centro Histórico recebeu muitas propostas interessantes, mas nenhuma delas tinha a ver com uma arena para cinco mil pessoas. Não sei de onde eles tiraram essa ideia. E aí eu conversei com alguns amigos, começamos a nos manifestar e isso se transformou em uma onda muito grande das pessoas se manifestando contra aquela ideia que, obviamente, ia matar tudo que foi construído e o que existe de vida ali. A gente acredita em moradia, no dia-a-dia, e não nos grandes eventos, que vão acontecer, atrair cinco mil pessoas e vão embora. A gente acredita que tem que ter o cinema todo dia, o museu, centros culturais, residências, que as pessoas habitem. E era um projeto que ia de encontro, na contramão mesmo, do que se vinha planejando. Então, que proposta de centro é essa que está se pensando? Inclusive, questionei a Leonelli se ele preferia morar ao lado de uma arena para cinco mil pessoas ou se ao lado de três museus, um cinema, um restaurante. E ele me disse que não acredita no Centro Histórico como moradia. Ou seja, tudo ao contrário do que o próprio governo dele vem falando. Para mim estava muito claro que aquilo não era um projeto de governo, mas tinha vindo do nada, de sopetão. E, por algum motivo, a Secretaria de Turismo comprou a ideia e queria implantar a qualquer custo.
BN  –  Hoje em que situação anda a construção dessa arena?
CM  O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional negou e Leonelli, frente à Secretaria Estadual de Turismo, já afirmou ter abandonado o projeto. Eu lamento que a verba que seria destinada à construção da arena não tenha sido aplicada em outros projetos já existentes. Acho que não houve tranquilidade e generosidade para avaliar qual seria a melhor solução para a questão. Eles ficaram magoados, se sentiram perseguidos e não pensaram nas outras possibilidades.
MH – Sem falar que depois da implantação do cinema ali na Castro Alves nenhum investimento concreto foi feito no entorno. Há necessidade de uma intervenção do estado na revitalização do Centro Histórico, mas tem de haver conversa entre o que já existe e o que está lutando para ser implementado. Para a gente conseguir construir realmente um cinturão cultural, não se pode pensar em um equipamento que venha e mate o que já existe e está lutando pela sobrevivência. Sem falar que há um projeto muito bom do “Palco Integrado”, ali onde era a Praça do Reggae, já em andamento, mas que está parado há meses. Este projeto resolveria um pouco essa demanda por espaço para show e evitaria construir palcos no calçamento de pedras. A gente não está precisando de espaços para shows, mas de outros empreendimentos culturais. Parece que a lógica da cidade é assim: “Temos um problema, o que é que a gente faz? Show”.
BN  –  Qual a formação de vocês?
MH – Eu sou formada em Psicologia e tenho mestrado em Comunicação.
CM  Eu passei por algumas faculdades, mas não me formei em nada.
BN – Pergunto por vocês nutrirem um interesse muito grande pela história, seja pela revitalização e ativação do antigo Guarany, agora Glauber, seja pelos temas dos documentários de vocês. Como se iniciou essa relação com esse tema que é um norteador de tudo o que vocês fazem?
MH  –  É, um norteador, com certeza. Engraçado, não tem muita racionalidade, nem uma coisa a priori, é muito interesse genuíno que vai nascendo. Cláudio sempre leu muito sobre a história do Brasil e do mundo, tinha o interesse em revitalizar o Guarany. Meu primeiro documentário foi sobre o Centro Histórico. A gente mora no Santo Antônio. E a gente sempre se queixou de Salvador ser uma cidade que não valoriza sua história, de esquecer muito rapidamente das coisas, de virar as costas para o passado, querer ir para as áreas novas, de não ter essa cultura da preservação. Coisas que, a meu ver, guardam a beleza e a força da nossa cidade.
CM – Por um lado, a gente é fascinado pela história da nossa cidade e também não conseguimos entender nada que ande para frente sem olhar para o passado. A gente precisa entender nossos processos de constituição e de formação para a gente fazer coisas novas. A gente quer fazer filmes novos, mas para isso é necessário conhecer o que foi feito em termos de cinema. São processos que estão absolutamente juntos. E por outro lado, como Marília falou, a gente está numa cidade que tem uma dificuldade muito grande de encarar o passado. Nossa história não é necessariamente alguma coisa bonita, é forte, é intensa, mas é violenta, com muito sangue, muita injustiça. Meu primeiro curta se chama “O Bombardeio de Salvador” e é resultado de uma pesquisa que eu fiz para o Guarany, para o cinema. Eu descobri – o que eu não sabia, por ignorância minha -, que, em 1912, Salvador foi bombardeada por uma briga entre os governos. Hermes da Fonseca mandou bombardear a cidade. Bombardeou o Palácio do Governo e a Biblioteca Pública, a maior da América naquele momento. Ou seja, a nossa história foi completamente destruída naquele momento. Essas são coisas que me impressionam muito. É como se a gente dissesse: “Olha, não deu certo até aqui, vamos começar de novo”. Só que a história não se apaga desse jeito, fica marcada em nossas ações.
BN  –  Vocês costumam dizer que Salvador é muito ensimesmada, inclusive no que diz respeito às outras regiões e cidades do estado. Como surgiu essa curiosidade sobre a imensidão da Bahia e o interesse em conhecê-la? 
MH  –  Nossos primeiros filmes estão centrados na cultura afrodescendente do Recôncavo, o que foi uma experiência riquíssima. Mas depois de fazer esses filmes, que foram “Carreto” e “Nego Fugido”, em especial, a gente sentiu necessidade de viajar para outros lugares do estado. Aí surgiu um edital do Irdeb, chamado “26 Docs Territórios”, que a gente lamenta muito por não ter sido relançado, que previa a realização de documentários nos 26 territórios de identidade baianos. Aí decidimos ir para um lugar com o qual não tínhamos contato, uma região distante, para exercitar esse olhar sobre o novo, o diferente. Escolhemos a cidade de Bom Jesus da Lapa, que é super distante e muito mais distante pelas condições das estradas. Também filmamos em Pilão Arcado, que está mais perto de Teresina que de Salvador – tem uma relação muito mais próxima com o Piauí que com a Bahia. A gente foi durante dois anos para a romaria de Bom Jesus da Lapa filmar “Sala dos Milagres”. Foi impactante, porque em agosto, fora do nosso calendário festivo, do calendário da capital, tem uma festa que mobiliza o interior inteiro. Um evento que tem tanto o aspecto religioso fortíssimo, quanto o aspecto de festa, de farra. O Rio São Francisco é uma benção naquela região, como as pessoas se divertem, se banham, dançam! A gente tentou levar toda essa riqueza para o curta. É um filme de observação, de viagem, de olhar…
CM – Fizemos também um curta sobre a região do Sobradinho, relacionado à construção da represa e, mais uma vez, envolvendo história. É chocante a forma como 73 mil pessoas foram deslocadas daquela região. Existe muita dor para falar sobre isso. Não é um curta que fale apenas da história, da memória, porque é uma coisa recorrente no Brasil de hoje. Nossa base energética é a eletricidade. É um processo que está acontecendo agora, em várias cidades do país e estamos repetindo os mesmos processos de desenvolvimento econômico no país, os quais não levam em consideração o drama humano das pessoas que são deslocadas. Temos tanto material de pesquisa e de arquivo, que a ideia não vai parar só no curta; estamos pensando em fazer um longa sobre esse assunto.
MH – Foi até bonito quando um crítico viu o filme e falou que parecia um filme sobre o passado, mas que na verdade era um filme sobre o futuro.
CM – A gente viajou por mais de 40 cidades do interior, graças a esse documentário, e a gente se deu conta que a situação é muito difícil no interior. É muita pobreza, muita tristeza, os jovens estão muito desesperançosos, tem um esvaziamento das cidades. As pessoas têm vindo muito mais para cá por causa desse desenvolvimentismo das cidades. Então, para a gente foi muito bom ter essa visão do todo, desse “desenvolvimento” que é um barril de pólvora. O que de alguma maneira, falando de história mais uma vez, tem a ver com a década de 70 e com o Milagre Econômico e que redundou numa década de perdida, a de 80, e que a gente parte no “Depois da Chuva”.

Cena do primeiro longa-metragem ficcional de Cláudio Marques e Marília Hughes, ‘Depois da Chuva’, que estreia em setembro
BN – Conte-nos um pouco sobre esse primeiro longa de vocês. Ainda ligado à história, mas ficção, em Salvador…
CM – O filme estreia no Festival de Brasília, de 17 a 24 de setembro. É um festival que acompanho muito, que se concentra em poucos filmes – o que permite uma dedicação maior, um maior número de exibições – e que a gente sempre sonhou em estrear um trabalho. E é a 46ª edição, um festival antigo, então é um orgulho. Em relação à trama do “Depois da Chuva”, ela tem inspiração autobiográfica, eu era um jovem na década de 80. Era o momento das Diretas Já, da abertura política do Brasil depois de uma ditadura de 20 anos. E eu vivi coisas muito fortes nessa época, muitas delas coisas inerentes a todo adolescente que está à flor da pele nessa fase de despertar para a vida. Para mim foi muito forte porque esse meu despertar político-amoroso coincidiu com um momento em que o Brasil vivia uma rara sensação de liberdade, uma sensação de potência. Algo único, mas que de certa forma, nos remete ao sentimento que temos hoje de que podemos e devemos modificar os rumos políticos e sociais. E eu contava muito dessas minhas experiências para Marília e ela foi a primeira a entender que ali poderia estar nosso primeiro longa-metragem de ficção.
BN – Antes mesmo de você?
CM – Sim, ela começou a me dizer que eram histórias que me diziam respeito, mas também diziam respeito a uma geração, a um país. Quando eu comecei a escrever, de fato eram muito minhas memórias, mas cada vez que a gente fazia um tratamento no roteiro, deixavam de ser minhas memórias para passar a ter inspiração autobiográfica, com outras pessoas, outras caras. Desde quando eu comecei a escrever até hoje já se passaram cinco anos e a cada novo processo o filme ia modificando e ganhando novos rostos. O Caio, que é o personagem principal e de certa maneira me representaria é também muito o Pedro [Maia], ator que a gente escolheu e que o interpreta. Até muito perto da gente filmar, a gente matava personagens, mudava radicalmente tudo. Cada filme nosso tem um método próprio, mas uma coisa que talvez una todos eles é a nossa abertura para aceitar o que o filme vai exigindo.

Bastidores da gravação de ‘Depois da Chuva’
BN – Como vocês lidam com o chamado cinema de autor?
MH – Falando da nossa experiência, a gente tem essa opção radical pelo cinema. Isso não é um julgamento moral, as produtoras têm objetivos distintos. O nosso é uma dedicação muito grande ao cinema, por acreditarmos que nessa dedicação podemos criar um aprimoramento. E, por essa opção, realizamos muitas etapas do processo, o que deixa tudo com a nossa cara. Além de direção e roteiro, a gente faz toda produção. Isso está muito ligado também a um modo de produção artesanal, que não é industrial. Os próprios editais têm seus tempos de envio de verbas e os tempos não são tempos comerciais, são mais morosos. E eu acho que essa questão da autoria é muito de quando você assiste a um filme e percebe que para além das imperfeições ali contidas, ele tem uma cara própria, ele tem uma identidade. Você percebe que por trás dele, mesmo que haja fórmulas, há também uma visão de mundo, um olhar.
CM – Você pode chegar em Hollywood e ver um autor, mas você pode também chegar no cinema mais barato do mundo e ver que ele repete fórmulas e não tem nada para dizer. Então, essa questão da autoria não necessariamente tem a ver com dinheiro. Você tem de ter alguma coisa a dizer e a preocupação em como contar essas histórias. Todo cinema é comercial, não existe filme que não seja comercial. Mas há aqueles com mais dinheiro ou com pouco dinheiro.  Todo filme vai procurar o seu público. Uns já sabem de cara que não são para um grande público, então vão procurar seu público mais reduzido. Isso inclusive permite que o autor mantenha a sua carreira.BN  – E o que diferencia a produção dessa nova geração do cinema brasileiro de tudo que já foi produzido no país?

CM –  Eu me sinto muito orgulhoso de participar dessa geração que se alimenta do cinema. Durante muito tempo no Brasil o cinema precisou se alimentar de outras áreas para existir, da política, da psicologia, da sociologia. Hoje, eu sinto que a gente se alimenta muito do cinema para falar da política, da sociologia e do próprio cinema. Voltando a “Depois da Chuva”, que a gente comentou anteriormente no quesito temático, ele também foi muito pensado enquanto filme. A estética, de como a gente ia contar essa história, de como a gente iria filmar, enquadrar… A gente filmou em 16mm e essa talvez tenha sido a última chance que a gente teve de filmar em película, por ser um filme de época. A gente já exibiu o filme na Argentina, durante o BAFCI, e na França, em Cannes, e as pessoas ficam muito emocionadas em ver um filme de época em película, pela textura. E aí vem a sua pergunta sobre a autoria. A luz, os planos, tudo isso é muito importante para a história que você vai contar. Mesmo que você não entenda e não discuta cinema do mesmo modo que nós, produtores/diretores, essas impressões refletem sobre a recepção.
BN – No início do ano, o site especializado em dados cinematográficos Filme B colocou a capital baiana na quarta posição do ranking nacional em público nas salas de cinema brasileiras, atrás apenas de São Paulo, Rio e Belo Horizonte. Como vocês avaliam essa posição?
CM – Temos 63 salas de cinema em Salvador e comparado a outras cidades esse número é proporcional ao número de habitantes. A gente tem um número cada vez maior de salas de cinema, temos também um público frequentador dessas salas crescendo, mas temos uma diversidade cada vez menor. Esse é o dado que para mim é dos mais preocupantes. Eu acho que o público está cada vez mais conservador em termos de desejo de cinema, do que quer ver no cinema. Por exemplo, nos últimos complexos de cinema inaugurados em Salvador – Shopping Paralela, Salvador e Bela Vista – são sempre os mesmos filmes em cartaz. Mas por que os mesmos filmes? Porque de fato são os filmes que a população tem procurado cada vez mais, que são os blockbusters, sejam brasileiros, sejam estrangeiros. Isso reflete o sistema educacional do Brasil, cada vez mais básico; reflete também a força da televisão, que impõe determinadas lógicas de consumo e de produção, que se mostram cada vez mais atrativas e eficientes; a força da internet e da publicidade na internet – tem alguns filmes que chegam a gastar mais em publicidade, que na própria produção. Tudo isso está fazendo com que um público grande, que não ia ao cinema, vá cada vez mais ao cinema. Que um público que ia muito ao cinema, abandone o cinema. Por um lado, eu fico muito feliz por saber que a gente tem uma quantidade grande de pessoas querendo ir ao cinema, mas por outro lado, fico triste, por esse conservadorismo dos desejos em se ver coisas diferentes. Eu, como exibidor, já tive experiências muito ruins ao propor filmes diferentes e quase apanhar pelo fato de as pessoas ficarem com raiva dos filmes “estranhos”. “Como é que você me tira da minha casa para me fazer assistir a um filme desses?”. E olhe que estou falando de um filme que ganhou A Palma de Ouro em Cannes, no mínimo era para se ter uma curiosidade. Eu tenho um orgulho muito grande de ter inaugurado aquela sala de cinema no centro da cidade. A gente tem uma vocação muito forte para o cinema brasileiro, sempre há sessões de algum filme brasileiro, mas às vezes me dá certa frustração pelo fato de as pessoas só quererem ver o “Homem de Aço”. Não tenho nada contra o “Homem de Aço”, mas acho que o bacana é você ver ele, ver o “Depois da Chuva” e, quem sabe, gostar dos dois. Eu vejo tudo, eu entro em todos os filmes. Tem filme de Hollywood que eu gosto e não tenho problema nenhum em falar isso, por outro lado tem filme brasileiro que eu acho péssimo e também não tenho problema nenhum em falar isso. A gente precisa ter a liberdade de falar, mas para isso a gente precisa ver, se entusiasmar para ver. Aí está a riqueza do cinema.BN – E o lançamento comercial de “Depois da Chuva”? Quando será?

MH – O lançamento vai ocorrer ano que vem, quando comemoraremos 30 anos do início das Diretas e de redemocratização do país. O filme surge em um momento importante também – obviamente, nada programado – porque recupera o renascimento dessa democracia. Acho que para entendermos essa insatisfação de hoje, de como a democracia está sendo exercida e qual o nosso papel nesse processo, temos de ter em vista esse passado recente da história do Brasil. Para entender tudo isso, temos, realmente, de voltar pra 1984 e entender 1984.
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