Inventário de uma resistência


Daniel Oliveira

AtaídesCRAV abre projeto Audiovisual em Debate com discussão sobre a questão das salas de cinema em Belo Horizonte

Para abrir seu novo projeto, que vai realizar palestras mensais sobre o universo da sétima arte, o Centro de Referência do Audiovisual (CRAV) escolheu como tema o maior gargalo do cinema brasileiro: o circuito de exibição. E para falar sobre “As Salas de Cinema de Belo Horizonte e suas Transformações”, o órgão convidou o maior especialista no assunto, Ataídes Braga, que pesquisa essa história há mais de 20 anos.

O professor inaugura o ciclo Audiovisual em Debate, amanhã, a partir das 19h, no CRAV (rua da Bahia, 1.149, centro). Autor do livro “O Fim das Coisas – as salas de cinema de Belo Horizonte”, que foi lançado na inauguração do Centro em 1996, Braga pretende atualizar o apanhado histórico do circuito exibidor da capital que ele fez na obra e abrir um debate sobre o cenário da cidade hoje.

“Quero apresentar o que Belo Horizonte já foi para o público mais jovem que vai estar lá e não tem ideia das salas que já fecharam”, conta o pesquisador. Segundo ele, a capital contava com cerca de 110 espaços de exibição nas décadas de 60 e 70, que desapareceram quase por completo nos anos 1980, dando lugar aos multiplexes dos shoppings.

Uma das novidades que o professor quer destacar é o surgimento do Cine CentoeQuatro. O espaço se une ao que ele chama de “cinema de resistência”, formado pela sala Humberto Mauro e pelo Cine Belas Artes na capital.

“Ele tem uma cara de cineclube e é claramente herdeiro do Usina e do espaço Unibanco Savassi”, comenta Braga. Para ele, a programação da sala, que traz cinematografias de difícil acesso e dá amplo espaço à produção brasileira com sessões comentadas, é uma alternativa ao “lixo que é despejado semanalmente nos shoppings”.

“O Belas Artes tinha ficado sozinho com essa missão”, afirma. Além do CentoeQuatro, o pesquisador vai abordar a revitalização de antigos espaços, como o Palladium (que já está em funcionamento), o Cine Brasil e o Pathé, que continuam sendo velhas promessas.

Segundo o professor, é importante que esses espaços continuem voltando como resistência ao modelo mercadológico que dominou o circuito exibidor. “É claro que todo mundo tem interesse no mercado e ninguém faz cinema para ficar em casa. O problema não é o comercial. É o excesso de lixo e a falta de diversidade”, argumenta.

Outra questão que deve entrar em pauta no debate é o advento da exibição digital, que em breve deve dominar o circuito, e como ele afetará os cinemas de rua. O Cine Humberto Mauro – que Braga usa como paradigma de resistência e que foi objeto de seu último livro, “Cachoeira de Filmes – o Cinema Humberto Mauro como Espaço de Exibição e Resistência”, de 2011 – recentemente passou por uma reforma e ganhou o sistema de projeção digital DCP (Digital Cinema Package), que vem se tornando padrão para os principais realizadores e festivais do mundo.

O pesquisador concorda que o formato é superior às demais exibições digitais existentes e é o mais próximo da película, em termos de qualidade. Mas ele se preocupa se o preço vai ser acessível para os cinemas de circuito mais pequeno. “Se for possível popularizar para vários espaços, será uma nova alternativa de exibição. Se não, vai ser simplesmente mais filmes ruins com melhor qualidade de projeção”, explica.

Independente disso, Braga concorda que o digital é um futuro inevitável. De acordo com ele, os distribuidores – especialmente de filmes mais baratos – já ligam para as salas e perguntam se elas contam com DCP. “Se não tem, eles não mandam porque não têm o filme em película”, afirma.

Para o professor, a única forma para os cinemas de rua sobreviverem nesse cenário é por meio de políticas públicas. “A verdade é que, 30 anos depois do desaparecimento quase completo das salas de rua na capital, nada foi feito pelo poder público para resgatar esses espaços”, sintetiza.

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