Procultura – Quase unanimidade


por  | sexta-feira, 25 maio 2012

Analisado e debatido publicamente em dois encontros realizados em São Paulo no último final de semana, a proposta de substitutivo ao projeto do Procultura, elaborado pelo Deputado Pedro Eugênio (PT/PE), obteve uma inédita – e até pouco tempo impensável – aprovação unânime das lideranças e representantes de entidades da sociedade civil dos mais diversos setores da cultura que participaram do Seminário #Procultura, promovido pelo site Cultura e Mercado e pelo Cemec.

A proposta conta também com total apoio dos atuais gestores do Ministério da Cultura, conforme ficou claro nas explanações feitas pelos Secretário Executivo e de Fomento e Incentivo à Cultura do MinC, respectivamente, Vitor Ortiz e Henilton Parente de Menezes.

Assim, a unanimidade absoluta em torno da proposta apresentada por Pedro Eugênio só não é ainda possível devido à existência de grupos que continuam defendendo publicamente a proposta da extinção sumária de qualquer legislação de incentivo e fomento à cultura fundamentada em mecanismos de renúncia fiscal. Tais grupos, que organizaram um protesto na frente local onde foi realizado o Seminário, apesar de serem atualmente visivelmente minoritários dentro do processo de discussão da matéria, prometeram continuar se mobilizando, protestando e fazendo barulho pelo menos enquanto o projeto não tiver sido definitivamente aprovado pelo Congresso e sancionado pela Presidenta Dilma Roussef.

Além de manter o principal objetivo do projeto original, que previa o aumento de recursos e fortalecimento do Fundo Nacional de Cultura (FNC), a proposta apresentada pelo deputado pernambucano apresenta várias inovações no sentido de corrigir muitas das distorções provocadas pela legislação atual. Entre as propostas, merecem especial atenção as que prevem a ampliação de 4% para 6% do percentual do Imposto de Renda devido destinado pelas empresas a investimentos; a incorporação de empresas com faturamento de até R$ 300 milhões ao universo de potenciais investidores, ampliando também de 4% para 8% o percentual do IR devido que estas empresas poderão aplicar; e a destinação ao FNC de 5% da renda de loterias federais.

Outra novidade diz respeito ao estímulo que deve ser dado ao funcionamento do Fundo de Investimento Cultural e Artístico (Ficart), destinado a aplicações financeiras em projetos culturais e artísticos, garantindo aos investidores uma dedução no Imposto de Renda devido de até 50%  do valor das cotas adquiridas.

Feitas todas as contas, segundo Pedro Eugênio, caso sua proposta seja aprovada, os recursos do FNC serão praticamente triplicados, devendo alcançar já no próximo ano cerca de R$ 900 milhões de reais.

A nova proposta estabelece também um sistema de pontuação que beneficia projetos e atividades que apresentem maiores “contrapartidas sociais”. Assim, quanto maior forem tais contrapartidas, como por exemplo, a gratuidade do produto e/ou serviço cultural, acessibilidade facilitada, difusão no exterior e ações educativas, maior será o abatimento do IR, estabelecendo através destes critérios percentuais de 30%, 50% ou 100% de dedução total do montante investido.

Está ainda previsto que as empresas que investirem em projetos e/ou atividades que receberem pontuação equivalente às faixas de apenas 30% e 50% de dedução poderão abater o valor total do investimento como despesa operacional, o que acarretará em mais descontos no final do processo.

Finalmente, modifica também pontos da legislação atual considerados injustos por vários setores da cultura, determinando que os critérios de classificação não se darão por segmento cultural e privilegiando projetos apresentados por produtores independentes.

O substitutivo busca ainda dar conta de resolver os problemas relacionados à concentração da captação e da aplicação dos recursos incentivados dentro do eixo Rio-São Paulo.

Praticamente todos os demais convidados que também “palestraram” no Seminário #Procultura, elogiaram efusivamente o trabalho desenvolvido pelo deputado pernambucano, apresentando apenas críticas amenas e bastante pontuais sobre a proposta apresentada.

A exceção ficou por conta da consultora e ex-secretária da Secretaria da Cidadania e Diversidade Cultural do MinC, Marta Porto, que foi bastante ácida e contundente em sua fala. Apesar de deixar bem claro que não é contra a continuidade da existência de mecanismos de financiamento baseados em mecanismos de renúncia fiscal, Marta deixou de lado a análise da proposta apresentada e criticou veementemente o fato do debate sobre financiamento da cultura no Brasil continuar centrado “apenas nos mecanismos relacionados à renúncia fiscal”.

Neste contexto, segundo Marta, “é preciso ressaltar que apesar dos avanços propostos no substitutivo apresentado pelo Deputado Pedro Eugênio, não existe nenhum dado ou estudo concreto que realmente aponte os impactos econômicos e financeiros que serão provocados pela aplicação destes novos mecanismos, sequer no orçamento do MinC”. Finalmente, também criticou “a falta criatividade e ousadia não só no debate sobre os mecanismos de financiamento da cultura, mas em relação a toda a política cultural que vêm sendo atualmente implantada no Brasil”.

Apesar dos avanços, antes mesmo de ser apresentada à Comissão de Tributação e Orçamento da Câmara, o projeto proposto pelo Deputado Pedro Eugênio parece já ter sofrido um primeiro e significativo retrocesso, já que, ao contrário de uma proposta que circulava anteriormente, o texto divulgado mantém a possibilidade da captação de recursos por organismos de caráter “estatal”.

Esse retrocesso foi criticado pelo Marv@da C@rne, que na condição de presidente do Congresso Brasileiro de Cinema também participou do Seminário #Procultura.

Infelizmente a manutenção da possibilidade de captação de recursos incentivados por qualquer tipo que for de ‘entidades’ que deveriam ser financiadas através de recursos orçamentários destinados por estados e municípios, além de ser injusta, não ajuda nem um pouco que consigamos avançar na tramitação da PEC 150 no Congresso.

Afinal, é inegável que essa situação é bastante confortável para governadores e prefeitos, que continuarão fazendo cortesia com o chapéu alheio e utilizando recursos federais para sustentar entidades e atividades culturais que deveriam ser financiadas com recursos dos orçamentos locais.

*Publicado originalmente no site Cultura e Mercado e na coluna Marv@da C@rne

João Baptista Pimentel Neto http://www.cbcinema.org.br

Presiente do Congresso Brasileiro de Cinema Para mais artigos deste autorclique aqui

Jafar Panahi


por João Baptista Pimentel Neto
jornalista, gestor e produtor cultural

Por sua natureza libertária e essencialmente cineclubista, uma exibição programada para acontecer no próximo sábado (26) pelo Tela Tudo Clube de Cinema de Maceió chamou a atenção deste Marv@da C@rne, que de pronto resolveu apoiar e divulgar a atividade junto a tod@s os seus leitores.

Trata-se da exibição do filme O Círculo, do cineasta iraniano Jafar Panahi que desagradou às autoridades iranianas ao apoiar Mir Hussein Mussavi, o candidato oposicionista, na eleição presidencial de junho de 2009. Posteriormente, sua casa foi invadida, e a sua coleção de filmes, tachada de “obscena”, foi apreendida. O cineasta foi preso em março de 2010 e, durante seus 88 dias de detenção, fez greve de fome. Mais tarde foi impedido de comparecer ao Festival de Cinema de Veneza, em setembro. Na ocasião, várias personalidades do cinema – como Steven Spielberg Juliette Binoche – manifestaram apoio a ele. “Não compreendo a acusação de obscenidade dirigida contra clássicos da história do cinema, nem compreendo o crime do qual sou acusado”, declarou o cineasta iraniano à corte. Em 16 de novembro de 2010, Panahi foi a julgamento, acusado de fazer um filme sem autorização e de incitar protestos oposicionistas.

Após uma onda mundial de protestos, da qual participaram também o CBC / Congresso Brasileiro de Cinema e o CNC / Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros, o cineasta quase desapareceu do noticiário desde a confirmação, em outubro de 2011, da sentença de 6 anos de prisão, e 20 anos sem escrever roteiros, dirigir filmes ou dar entrevistas. Neste contexto, cabe, então, antes de tudo, perguntar a quem souber como está Jafar Panahi, cujo último filme (!?!) intitulado “Isto não é um filme”estreiou a cerca de uma semana atrás na pequena sala do Cine Jóia, no Rio de Janeiro.

Assim é que, por também considerar esta uma causa justa, o Marv@da C@rne engrossa estas fileiras e apoia a luta pela liberdade do cineasta iraniano e também pergunta:

Como está Jafar Panahi?

* Confira abaixo as informações sobre a exibição que será realizada pelo Tela Tudo Clube de Cinema de Maceió, Alagoas.

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Tela Tudo protesta pela libertação de Jafar Panahi

Voz e tela para Panahi.

Tela Tudo Clube de Cinema realiza neste sábado (26) uma sessão em protesto pela libertação do cineasta iraniano Jafar Panahi, com a exibição de uma de suas obras mais inquietantes, O Círculo. Detido por 88 dias em 2010, durante os quais fez greve de fome, ele foi condenado a não poder realizar filmes nos próximos 20 anos, e nós, à perda do seu cinema engajado. Passado o tempo e o furor de importantes protestos em todo o mundo, que incluem a realização em prisão domiciliar de Isto não é um filme, como ficará Panahi? A sessão começa às 14h30min, no Cine SESI Pajuçara. A entrada é gratuita.

Em O Círculo, o drama da mulher iraniana é filmado em estrutura circular, onde três mulheres que recebem indulto temporário para deixar a prisão precisam enfrentar a repressão da sociedade islâmica, que lhes priva até do direito de comprar uma passagem de ônibus para deixar a região. Carregado de intensidade dramática, o filme humaniza a trajetória dessas três mulheres com desejos e anseios diferentes, mas igualmente vítimas de cotidianas formas de repressão. A obra ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza em 2000.

Serviço
O Círculo, de Jafar Panahi
2000, 90min, Irã

Quando: 26 de maio de 2012, SÁBADO, às 14h30min
Onde: Cine SESI Pajuçara, Maceió, AL

Entrada Gratuita
Classificação Indicativa:
14 anos

Realização
Tela Tudo Clube de Cinema

Parceria
Centro Cultural SESI

Apoio
CBC / Congresso Brasileiro de Cinema
CNC / Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros
Observatório Cineclubista Brasileiro
Blog do Marv@da C@rne

Créditos
Cartaz, banner e visual do site:
Amanda Nascimento
Texto-convite: Jafar Panahi, em carta às autoridades iranianas 
Edição de informações:
Lis PaimNivaldo Vasconcelos

* Carta divulgada mundialmente em redes sociais e sites de notícias. Tradução de Ana Luiza Baesso.
André Bazin.

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Texto-convite, por Jafar Panahi*

“Julgar-nos é julgar todo o cinema social iraniano”

Ilmo. Sr. Juiz, permita-me apresentar minha defesa em duas partes distintas.

Primeira parte: o que se diz

Nos últimos dias, revi vários de meus filmes preferidos da história do cinema, embora grande parte de minha coleção tenha sido confiscada durante o ataque à minha residência, ocorrido na noite de 19 de fevereiro de 2009. Na verdade, o Sr. Rassoulof e eu estávamos rodando um filme do gênero social e artístico quando as forças que alegavam fazer parte do Ministério da Defesa, sem apresentar nenhum mandado de busca oficial, a um só tempo nos prenderam, bem como a todos os nossos colaboradores, e confiscaram todos os meus filmes, que nunca me foram restituídos posteriormente. A única alusão feita a esses filmes foi a do juiz de instrução do processo: “Por que essa coleção de filmes obscenos?”.

Gostaria de esclarecer que aprendi meu ofício de cineasta inspirado por esses mesmos filmes que o juiz chamava de “obscenos”. E, acredite, não sou capaz de entender como um adjetivo como esse possa ser atribuído a tais filmes, assim como sou incapaz de compreender como se pode chamar de “delito de opinião” a atividade pela qual hoje querem me julgar. Julgam-me, na verdade, por um filme que ainda não tinha nem o seu primeiro terço rodado quando fui preso. O senhor certamente conhece a expressão que diz que pronunciar apenas metade da frase “não existe nenhum deus além do grande Deus” é sinônimo de blasfêmia. Então, como se pode julgar um filme antes mesmo que ele esteja pronto?

Não sou capaz de entender nem a obscenidade dos filmes da História do cinema nem a acusação que é proferida contra mim. Julgar-nos é julgar todo o cinema engajado, social e humanitário iraniano; o cinema que pretende se posicionar para além do Bem e do Mal, o cinema que não julga e que não se põe a serviço do poder e do dinheiro, mas que dá o melhor de si para apresentar uma imagem realista da sociedade.

Acusam-me de ter desejado promover o espírito de tumulto e de revolta. No entanto, ao longo de toda a minha carreira de cineasta, sempre me declarei um cineasta social e não político, dotado de preocupações sociais e não políticas. Nunca desejei atuar como um juiz ou um procurador; não sou cineasta para julgar, mas para fazer enxergar; não pretendo decidir pelos outros nem prescrever-lhes o que quer que seja. Permita-me repetir minha intenção de posicionar meu cinema para além do Bem e do Mal. Esse tipo de engajamento sempre custou caro a meus colaboradores e a mim mesmo. Sofremos os prejuízos da censura, mas é a primeira vez que se condena e prende um cineasta para impedi-lo de fazer seu filme. Também pela primeira vez é feita uma perquisição na casa do referido cineasta e sua família é ameaçada enquanto ele passa uma “estadia” na prisão.

Acusam-me de ter participado de manifestações. A presença de câmeras era vetada durante essas reuniões, mas não se pode proibir que cineastas participem delas. Minha responsabilidade enquanto cineasta é observar para, um dia, manifestar o que vi.

Acusam-nos de ter começado as filmagens sem solicitar a autorização do governo. Devo esclarecer que não existe nenhuma lei promulgada pelo Parlamento que se refira a tais autorizações. Na verdade, existem apenas circulares interministeriais, que mudam à medida que mudam os vice-ministros.

Acusam-nos de ter começado as filmagens sem apresentar o roteiro aos atores do filme. Nosso modo de fazer cinema, que recruta principalmente atores não profissionais, adota essa prática costumeiramente. Tal acusação me parece muito mais um produto do humor deslocado do que do setor jurídico.

Acusam-me de ter assinado petições. De fato, assinei uma petição na qual 37 dos nossos mais importantes cineastas declaravam sua inquietação quanto à situação do país. Infelizmente, em vez de ouvir esses artistas, acusam-nos de traição; e, no entanto, os signatários dessa petição são justamente as pessoas que sempre reagiram primeiro às injustiças do mundo todo. Como desejam que eles permaneçam indiferentes ao que acontece dentro de seu próprio país?

Acusam-me de ter fomentado manifestações no festival de Montreal; essa acusação não se baseia em lógica alguma, já que, enquanto diretor do júri, eu estava em Montreal havia apenas duas horas quando as manifestações começaram. Sem conhecer ninguém na cidade, como eu poderia ter organizado tais eventos? Talvez não se faça um esforço para lembrar, mas, durante esse período, nossos compatriotas se reuniam a fim de manifestar suas exigências.

Acusam-me de ter participado de entrevistas com as mídias de língua persa de fora do meu país. Mas não existe nenhuma lei proibindo tal ato.

Segunda parte: o que eu digo

O artista representa o espírito observador e analista da sociedade à qual ele pertence. Ele observa, analisa e procura apresentar o resultado disso em forma de obra de arte. Como se pode acusar e incriminar quem quer que seja em função de seu espírito e de sua maneira de enxergar as coisas? Tornar os artistas improdutivos e estéreis é sinônimo de destruir todas as formas de pensamento e de criatividade. O ataque efetuado à minha residência e a minha prisão e a de meus colaboradores representam o ataque do poder contra todos os artistas do país.

A mensagem transmitida por essa série de ações me parece bem clara e triste: quem não pensa como nós se arrependerá…

Finalmente, gostaria também de lembrar ao Tribunal outra ironia que diz respeito a mim: o espaço dedicado a meus prêmios internacionais no museu de cinema de Teerã é maior que minha cela penitenciária.

Seja lá como for, eu, Jafar Panahi, declaro solenemente que, apesar dos maus-tratos que ultimamente tenho sofrido de meu próprio país, sou iraniano e quero viver e trabalhar no Irã. Amo meu país e já paguei o preço por esse amor. No entanto, tenho outra declaração a acrescentar à primeira: sendo meus filmes provas irrefutáveis disso, eu declaro acreditar profundamente na observância das leis “dos outros”, da diferença, do respeito mútuo e da tolerância – a tolerância que me impede de julgar e de odiar. Não sou tomado de ódio nem mesmo pelos meus interrogadores, porque reconheço minha responsabilidade para com as gerações futuras.

A História com “H” maiúsculo é muito paciente; as pequenas histórias passam diante dela sem se dar conta de sua insignificância. De minha parte, preocupo-me com essas gerações futuras. Nosso país está muito vulnerável e somente a instauração do Estado de direito para todos, sem nenhuma consideração étnica, religiosa ou política, pode nos preservar do perigo bem real de um futuro próximo caótico e fatal. Em minha opinião, a tolerância é a única solução realista e honorável a esse perigo iminente.

Com meus sinceros respeitos, Ilmo. Sr. Juiz.
Jafar Panahi, cineasta iraniano

Tela Tudo Clube de Cinema convida para o protesto pela liberdade de Jafar Panahi e do seu cinema humanista, com a exibição de apenas uma de suas obras-primas, porque todos os filmes nascem livres e iguais*.

Outros filmes do diretor, clique aqui

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10 de Maio – Dia do Público


Marv@da C@rne Especy@l

Posted on 10/05/2012 by pimentel43

por João Baptista Pimentel Neto
jornalista, gestor e produtor cultural

10 de Maio / Dia do Público

Hoje, 10 de maio, o movimento cineclubista internacional celebra em todo o mundo oDia do Público!

Para marcar a efeméride, dezenas de cineclubes brasileiros realizam hoje atividades de exibição, seguidas de debates voltadas a discussão sobre o Público, recolocando em pauta e fortalecendo desta forma a Campanha Pelos Direitos do Público que desde 2008 é desenvolvida mundialmente pela FICC / Federação Internacional de Cineclubes e que no Brasil é coordenada pelo CNC / Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros.

A campanha tem por base a Carta dos Direitos do Público ou Carta de Tabor (veja abaixo).

Porque 10 de Maio?

Já a escolha do dia 10 de maio como data para celebração mundial do Dia do Públicofoi proposta pelo cineclubista brasileiro Felipe Macedo, visando resgatar e simbolizar no episódio da Revolta do Astor Place, ocorrido em 10 de maio de 1849, em Nova York, a retomada pelo movimento cineclubista internacional da luta pelos Direitos do Público.

Segundo Macedo, conforme registros históricos, nesta data “aconteceu (em Nova York) uma grande revolta popular, que deixou pelo menos 22 mortos e uma centena de feridos. Foi a primeira vez que a milícia estadual foi mobilizada contra o povo. Essa revolta marca uma mudança, uma inflexão na história do espetáculo e do público”.

Ainda segundo Macedo “O massacre tem sua origem trivial na rivalidade entre dois atores shakespeareanos: William MacReady era o grande astro inglês, tradicional e identificado com a hegemonia britânica no terreno artístico e cultural; Edwin Forrest, o maior ator americano, acusado de “tomar liberdades” com o texto do “divino bardo”, justamente por procurar aproximá-lo de um público mais popular. MacReady era a imagem não apenas da metrópole e da aristocracia, mas era o “queridinho” – pet of princes como dizia sua propaganda – da burguesia americana ascendente, que procurava emular a classe dominante inglesa. Forrest era a expressão de um patriotismo proletário, de um gosto das camadas médias e dos trabalhadores.

No dia 7 de maio, McReady se apresentou na Astor Opera House diante de um público de fãs de Forrest que havia se organizado para vaiá-lo. O ator inglês decidiu, então, interromper sua turnê e voltar para a Inglaterrra, mas foi demovido da idéia por uma petição, assinada por 47 personalidades da alta sociedade. O próximo espetáculo, no dia 10, encontrou diante do teatro uma multidão de mais de 10 mil pessoas. A apresentação aconteceu, para um público seleto – depois de uma rigorosa triagem -, mas em condições muito difíceis, claro. MacReady saiu disfarçado, pelos fundos, ao final. Temendo perder o controle da cidade, as autoridades chamaram as tropas que, ameaçadas pela populaça, acabaram abrindo fogo à queima-roupa (7).

“Esse cisma entre cultura de elite ultra minoritária e cultura de massa certamente abriu caminho para o florescimento de artes “populares”, que pouco deviam ao gosto das grandes famílias do Leste do país que detinham de fato o poder financeiro, industrial e político. Mas as formas de espetáculo que então se desenvolveram numa esfera de entretenimento diferente das classes dirigentes não deixavam de servir também aos interesses destas”(8).

Neste contexto, para MacedoRevolta do Astor Place, como ficou conhecida, tem, como nenhum outro acontecimento, as características que devem estar associadas à criação de um símbolo importante e permanente para unir e identificar uma comunidade – o público -, sua história e sua luta. O fato é consensualmente identificado com essa oposição – e tomada de consciência – da autonomia do público em relação aos poderes dominantes.

A proposta foi encampada pela FICC / Federação Internacional de Cineclubes e pelo CNC / Conselho Nacional de Cineclubes e aprovada em maio de 2010, durante o VI EIAC / Encontro IberoAmericano de Cineclubes, realizado em Atibaia (SP), dentro da programação do 6 FAIA / Festival de Atibaia Internacional do Audiovisual, promovido pelaAssociação de Difusão Cultural de Atibaia / Difusão Cineclube.

Cyneclubyst@ de carteirinha desde criancinha. Também militante do movimento em defesa dos Direitos Humanos e, portanto, dos Direitos do Público, convido hoje meus leitores a fazerem uma atenta leitura e a refletirem sobre o conteúdo da Carta dos Direitos do Público ou “Carta de Tabor”, que mesmo tendo sido escrita e aprovada pela Assembléia Geral da FICC em 1987, continua ainda hoje, colocando em foco temas e a defesa de direitos cada vez mais importantes  no contexto de um mundo cada vez mais globalizado e dependente da comunicação e da linguagem do audiovisual. Peço portanto que leiam, reflitam e que se possível, apoiem e participem desta campanha. Afinal, o Público Somos Todos Nós!

Carta dos Direitos do Público ou “Carta de Tabor”

A Federação Internacional de Cineclubes (FICC), organização de defesa e desenvolvimento do cinema como meio cultural, presente em 75 países, é também a associação mais adequada para a organização do público receptor dos bens culturais audiovisuais.Consciente das profundas mudanças no campo audiovisual, que geram uma desumanização total da comunicação, a Federação Internacional de Cineclubes, a partir de seu congresso realizado em Tabor (República Tcheca), aprovou por unanimidade uma

Carta dos Direitos do Público

1. Toda pessoa tem direito a receber todas as informações e comunicações audiovisuais. Para tanto deve possuir os meios para expressar-se e tornar públicos seus próprios juízos e opiniões. Não pode haver humanização sem uma verdadeira comunicação.

2. O direito à arte, ao enriquecimento cultural e à capacidade de comunicação, fontes de toda transformação cultural e social, são direitos inalienáveis. Constituem a garantia de uma verdadeira compreensão entre os povos, a única via para evitar a guerra.

3. A formação do público é a condição fundamental, inclusive para os autores, para a criação de obras de qualidade. Só ela permite a expressão do indivíduo e da comunidade social.

4. Os direitos do público correspondem às aspirações e possibilidades de um desenvolvimento geral das faculdades criativas. As novas tecnologias devem ser utilizadas com este fim e não para a alienação dos espectadores.

5. Os espectadores têm o direito de organizar-se de maneira autônoma para a defesa de seus interesses. Com o fim de alcançar este objetivo, e de sensibilizar o maior número de pessoas para as novas formas de expressão audiovisual, as associações de espectadores devem poder dispor de estruturas e meios postos à sua disposição pelas instituições públicas.

6. As associações de espectadores têm direito de estar associadas à gestão e de participar na nomeação de responsáveis pelos organismos públicos de produção e distribuição de espetáculos, assim como dos meios de informação públicos.

7. Público, autores e obras não podem ser utilizados, sem seu consentimento, para fins políticos, comerciais ou outros. Em casos de instrumentalização ou abuso, as organizações de espectadores terão direito de exigir retificações públicas e indenizações.

8. O público tem direito a uma informação correta. Por isso, repele qualquer tipo de censura ou manipulação, e se organizará para fazer respeitar, em todos os meios de comunicação, a pluralidade de opiniões como expressão do respeito aos interesses do público e a seu enriquecimento cultural.

9. Diante da universalização da difusão informativa e do espetáculo, as organizações do público se unirão e trabalharão conjuntamente no plano internacional.

10. As associações de espectadores reivindicam a organização de pesquisas sobre as necessidades e evolução cultural do público. No sentido contrário, opõem-se aos estudos com objetivos mercantis, tais como pesquisas de índices de audiência e aceitação.

Tabor, 18 de setembro de 1987

Confira também abaixo o documento final, entidades e pessoas que já subscreveram a Campanha Pelos Direitos do Público quando de seu lançamento no Brasil em 2008.

Campanha pelos Direitos do Público 2008 / Documento Final

C@us@s & Lut@s

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carta de san angél